domingo, março 28, 2010

Um Café?


Há frio...
Ventos leves...
Chuva rala...
Aperto no peito...
Distância dolorida...
Vivência não vivida...
Saudade do porvir...
Contos leves...
Tua voz ao meu ouvido...
Ela me garante que espera...
Gostamos de pensar que estou a fazer uma viagem qualquer...
E nos falamos ao telefone...
Escutamos qualquer música careta...
Assistimos a um filme qualquer...
E enquanto a chuva cai...
Nos falamos à distância...
Esse ser que nos oprime e arranca lágrimas de mim...
Mas estamos tão próximos, é certo...
Que há pouco nos oferecemos carinho...
Cafuné, deitar no colo, dormir coladinho...
Oferecemos o comum de casa...
Quer um café?


terça-feira, março 16, 2010

Escrever...

Eu não escrevo...
Quem escreve é minha angústia...
Minha solidão chorosa...
Meu aperto no peito...
Nó na garganta...

As mãos são linhas tênues...
Composição inerte...
Imposta à tela...
Arrancada de dentro p'ra fora em força agressiva...
Luz de fim de túnel...

O som é nordestino...
Rabeca e zabumba...
É sertão seco, inagualável...
Respiração fugidia...
Tosco sentimento indecifrável...

Quem sofre sou eu...
Um coração frente ao calmo mar...
Quem se expressa é a angústia...
A força indizível do sofrer...
A distância...
O rasgo em mente observada de cant'olhos...

Quem escreve é a ira...
O insano inseparável que luta em se desvencilhar...
A força irrevogável...
A ânsia de poder estar...
A vírgula pronta para pausar...
O ponto, para finalizar...

Há liberdade...
Tempos idos que à frente está...
Sorte de desejo aconchegado no peito quente...
Esperançoso...
Que espera, enfim...

Quem escreve é a ordem...
Intenta se caotizar...
Caos inverso em verso introjetado...
Quem escreve é o nada...
O desespero mais esperado...

O que nada diz...
Que tem tudo a dizer...
Pois é nada e como tal, tudo mostrará...
Incendiará a boca insossa...
Com palavras de fogo e clarão reluzente...

O seco caos interno...
O fogo em água faltante...
O asno em relincho salgado...
Patas em coice a se preparar...
Bocas em chamas a se tocar...

Escreve isso aí...
Esse tudo e nada paradoxal...
Quem escreve é o já escrito...
Mera repetição de palavras ôcas e descritas pomposamente...
Eu nunca escrevi...
São as letras, repito, que se escrevem a si próprias.



sexta-feira, fevereiro 19, 2010

O Elefante


Ele é infante, ainda chora...
Sente falta, agoniza, implora...
Se debate e intenta fugir...
Mas há correntes...
Ligadas a um peso sem fim.

Tão pequeno, crer-se tão capaz...
Usa força, puxa e ao chão jaz...
Não! É só um descanso...
Tão forte ele é, insiste...
Persiste o pequeno elefante...

Depois de água e comidas...
Rações, para ser mais exato...
Ele olha ao chão...
Correntes aos pés...
Detido, um coração...

É jovem, agora...
Sábio tornou-se...
Correntes são fortes...
Prenderam uma alma...
Quem é capaz?

Adulto, olha ao público...
Diverte e se sente atração...
Olha a corrente aos pés e sente-se na razão...
Eu o olho e pergunto: "como pode, então?"
Antes, peso insondável...
Hoje, pino de construção!

O grande elefante perdeu-se em solidão...
Em coração vazio...
Em correntes inquebráveis...
Em pinos com peso do medo e da servidão...
Quem diria, tão grande, por que não?!
Correntes tão finas...
Mas há peso no coração!

É na alma do elefante que habitam as correntes...
Os pesos inabaláveis...
As crenças insondáveis...
A incapacidade impingida sem dó...

O elefante é infante em sua alma...
É gigante, mas pequeno e incapaz...
Aqui jaz, um elefante enfurecido...
Lá, morreu, a liberdade e o ser capaz...
Aqui, a diversão insandecida...
De humanos... outros animais.


_________
Aproveito este pequeno espaço para dizer que sou totalmente contra circos e/ou estabelecimentos que se utilizam de animais para divertir o público pagão, pagante, como queiram...

domingo, fevereiro 14, 2010

Para uma Princesa, um Príncipe!


Eu já limpei minha alma...
Em sal grosso conservei...
A carne estraçalhada...
Já descobri o osso de mim...
O coração está vivo...
Agora mais...
Bate por um amor...
Lavei a alma...
Límpida...
Deixei a chuva me molhar...
A água escorrer...
A lágrima correr...
Escondera-me por muito tempo...
O tempo...
O tempo deslizara, enfim...
Hoje, deslizo-o por mim...
Tomo-o como a um deus dominado...
O tempo...
O rei e o mestre sábio...
Mergulhei minha alma sangrando nas águas...
Águas tempestivas do tempo...
Mergulho infindo...
Tão profundas, estas águas...
Mas logo descobri!
A profundeza é medo de entrar nas águas...
É raso, na verdade, o profundo...
Estava aí, o tempo todo, com a voz do tempo...
Estava gritando desesperada...
A minha alma insandecida...
Foi um breve mergulhar...
Um fio de sensatez obter...
Um rio de amor jorrar...
Foi um breve conhecer de uma leve princesa...
Para um reino descobrir...
Para um príncipe me tornar...
E Ela, toda simples e humilde, aprisionou meu coração...
Mas é tratado como um rei...
Em cuidado, em carinho, em atenção...
Hoje sei que sem Ela, amor eu não teria...
Sem Ela, para quem me doaria?
Ninguém, antes Dela, conseguiu me aprisionar
Na leveza do voar...
Nas asas das nuvens, nas carícias do ar...
É Ela o complemento necessário...
O despir de minha alma...
O sentir necessário...
A existência que me impele a me curvar...
Mas em vôo, em asas, em ares, em mares, em sóis...

________
À minha "bonequinha de pano"...

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

In Números



Um coração.
Um cérebro.
Dois braços.
Duas pernas.

Um coração.
Um cérebro.
Dois braços.
Duas pernas.

Um cérebro.
Um coração.
Uma vida.
Uma servidão.

Um cérebro.
Sem razão.
Um coração.
Sem sensatez.

Uma razão.
Uma ração.
Um estômago.
Um vazio.

Um coração.
Um ôco.
Um servil.
Um ser vil.

Um cérebro.
Um ôco.
Um vazio.
Uma crença.

Uma cresça.
Duas pernas.
Dois braços.
Mas duas mãos.

Uma reza.
Dois joelhos.
Dois olhos fechados.
Um coração.

Um vazio.
Uma crença.
Uma criança.
Um infantil.

Um doce.
Um chiclete.
Uma palavra.
Um engodo.

Duas pernas.
Uma igreja.
Um sacerdote.
Uma mala de dinheiro.

Dois olhos.
Um tapa-olhos.
Um cego.
Umas moedas.

Duas pernas.
Uma porta.
Uma chave.
Uma cama.

Um copo d'água.
Um dormir.
Um pesadelo.
Um sonho.

Dois olhos.
Uma reza.
Umas palavras.
Um vazio.

Um cérebro.
Um pão amassado.
Um café mal passado.
Um vazio.

Um coração.
Uma enxada empunhada.
Umas gotas de suor.
Um vazio.

Duas pernas.
Uma porta.
Uma chave.
Um vazio.

Então, uma igreja.
Um sacerdote.
Uma riqueza.
Um embuste.

Um vida.
Um pão amassado.
Dois braços.
Duas pernas.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Que Será?


Tinham asas?
Não sei.
Só sei que voavam...
Eram xícaras...
Eram copos...
Eram pratos...
Eram gritos roucos...

E do outro lado?
Tinha a parede...
Tinha a janela...
Tinha o armário...
Tinha a cabeça dele...

E de onde vi?
Vi de fora...
Vi da janela...
Vi que alguém iria embora...
Vi que certamente não era ela...

E o que ocorreu?
Vai saber...
Só vi correr...
O vi partir...
Sem sequer parar, sair...
Fugir...

Se ri?
É cômico...
É irônico...
Mas é ridículo...
É insano...
Insalubre...

E o que resta?
Restam copos...
Xícaras...
Pratos...
E choros.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Daqui até a Eternidade


Fiquei absorto...
Olhei para mim...
Que há de novo?
Algo que eu nunca vivi...
Perplexo fiquei...
Nunca, antes, amei...
Dá medo da inconstância..
Insegurança do não controlável...
O amor, aprendi, é soltura...
Descontrole premeditado...
É deixar-se cair...
Voar fundo no abismo colossal...
E quando perto do chão chegar,
Avoar em amor, tudo dar...
Nada querer em troca...
Ser para Ela, é o que aprendi...
Doação, perda de forças em pura resignação...
Isso mesmo, resignação!
(Nunca me imaginei a escrever esta palavra.)
Que é subter-se a uma força tão doce como o amor?
É sublimidade, divinização do humano corruptível...
Elevação, enfim.
O amor é uma contradição.
Arre, que eu tinha em mente quando achei que era ilusão?!
Agora, quando vou, não quero volta...
Quando sou, sou para Ela, não para mim...
Sou puro doar-se...
Puro comprazer-se em tê-La nos braços...
Em adorá-La sem tempo ou espaço...
Sem medo, medição e compasso...
Sou mais.
Pois sou menos...
Sou menos, pois sou tudo...
O mundo, o todo...
Sou mudo.
Sou voz e força...
Sou mais, amor.
E vale arriscar? - pergunta a voz medrosa e medíocre.
Respondo com outra pergunta:
Que é viver, senão arriscar?
Aposto e arrisco.
Aponto para um porto...
Meu mar, oceano indizível.
Vou tentar.
Não sou bicho arisco.


sexta-feira, janeiro 15, 2010

Dentro


Caminhei através da chuva fraca...
Os sons me vinham aos milhares...
Muralhas incas se ergueram à minha frente...
Melhores falhas seriam aquelas de outrora...
Outrora e lugares, luares e incenso...
Fogo e arranha-céus iluminados...
Respiração fugidia.

Atravessei a rua olhando para o outro lado...
Tropeçar numa pequena pedra é sinal de desatenção...
Trouxe-me até aqui só para te atrapalhar...
Atravancar e roubar...
Rolar sobre o chão sujo...
Enlamear a roupa branca...
Senti saudade.

Eu senti saudade salgada...
Suores e arrepios...
Mudanças e procuras sem razão...
Línguas e olhares...
Desejo de outros lugares...
Anseio e coração...
Passeio pelo corpo.

Caminhei por entre curvas...
Direção já não há...
E ao chão estamos nós...
Você sempre diz que me adora...
Se sente arrepiada só de imaginar...
Quando em teu cangote minha barba arranha...
E teu cabelo em força eu posso puxar.

Adoras as palavras indóceis...
Aquilo que só há no momento eterno da fogueira...
O beijo doce misturado à força agressiva...
E me pedes para falar ainda mais...
E te ordeno que implore...
Se nada há que nos impeça, somos o tudo!

Perdemos tudo na exata hora do ganho supremo...
Para tudo ter, êxtase extremo...
Olhamos, sorrimos, nos tocamos...
Arrepiamo-nos juntos, pois em consonância agimos...
Estamos ao redor...
Como se fôssemos água...
Mas somos fogo!

Adentro à tua sala de estar...
Mergulho em ti...
Aceitas e me abraças...
És como queres, ser minha...
E diz-me: "vem, entra, a casa é tua..."
E sorrio, qual criança encantada...

A chuva passou...
Agora são suores misturados...
São carinhos despidos...
É nudez, pois não te deixo respirar...
Pego-te de jeito e você adora...
Anseia só de pensar...
E de imaginar, molha-se no próprio néctar...

Deslizo, escorregando até ao fundo...
Tua respiração parou por um instante...
Um fio de voz mostra-me quão intenso sou para ti...
Qual aparição sensual te mostras...
Tua voz sussurra um silêncio retórico...
Uma força escondida...
Uma forma de vida calada...
Mas é o instante anterior...
És bravia, agora...
És só unha sobre minhas costas...
Somos um.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Nas Palavras



E eu é que sei o quanto tua voz é importante para mim...

O quanto tuas lágrimas me ferem...

O quanto de amor existe, enfim...


Eu é que sei o valor de tuas palavras...

De teu empenho e carinho extremos...

De teu amor expresso no olhar...

Sou eu, quem sente a inspiração crescente...

O calor mesmo à distância...

O desejo de te ver, ter e ser com você...

É de mim que tiro a força que nasce todos os dias...

É para ti que direciono minha energia...

Sou adepto do agora e o que sinto me guia.


Saibas que se estou aqui a escrever

É por que sinto que estou com você...

Sinto que ainda há muito a dizer...

Muito a viver...

Muito a tocar, olhar, desejar e ser...

Se na imagem e no reflexo te encontras,

É nas palavras que estou...

Entende?


Na imagem e sombras das letras

Escondi-me durante muito tempo...

Faço esforço e luta, intensos...

Só para a ti me expressar...

Para em ti me encontrar...

Não é nada tão difícil...

Estou seguro em três palavras...

E você as conhece.

Dizemos todos os dias...

Em meio a reveses, anseios e melodias..